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CÂMARA MUNICIPAL DE TOLEDO |
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Indicação 779/2026
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| Proponente: Ver. Professor Oseias | "Denominação de logradouro ou próprio público municipal com nome de Eloi Lurdes Fitz dos Santos." | ||||
Senhor Presidente,
O vereador que esta subscreve, nos termos do artigo 145 do Regimento Interno,
INDICA
ao Chefe do Poder Executivo, denominação de logradouro ou próprio público municipal com nome Eloi Lurdes Fitz dos Santos
Eloi Lurdes Fitz dos Santos
“Lurdinha", a mulher cujo coração era maior que o corpo
Toledo, Paraná • 24 de dezembro de 1958 – 17 de abril de 2026
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Existem histórias de vida que não cabem em poucas palavras, porque cada capítulo delas transborda de força, de fé e de uma generosidade que desafia qualquer explicação racional. A história de Eloi Lurdes Fitz dos Santos, carinhosamente chamada de Lurdinha por todos que tiveram o privilégio de cruzar seu caminho, é uma dessas histórias.
Desde muito jovem, por volta dos dezoito anos, Lurdinha conviveu com uma condição física que curvou sua coluna na forma de um "S" e deixou alguns de seus órgãos internos com tamanho reduzido, entre eles um dos pulmões. O corpo, que o mundo insistia em ver como limitação, nunca foi, para ela, um obstáculo definitivo. Era apenas o ponto de partida para uma vida de superação silenciosa.
Por boa parte de sua vida, ela não usou cadeira de rodas. Andava com enorme dificuldade, mas andava. Trabalhava com sua mãe num pequeno mercadinho e lavava roupas às margens de um rio para os trabalhadores da Usina de Itaipu, ganhando seu dinheiro com o suor das próprias mãos. Nunca pediu o que podia conquistar. Nunca reclamou do que podia suportar. Também trabalhou por muitos anos na parte rural, com café, trigo, soja entre outros. Sempre deu seu jeitinho para conquistar suas coisas e realizar seus sonhos. Desde dessa época era muito apegada na igreja, e ajudava sua mãe com seus 11 irmãos, ela era a 3 mais velha a primeira menina.
A vida, com seus acasos e graças, a colocou no caminho de Olímpio Moraes dos Santos. Foi amor à primeira vista, daqueles que não precisam de muito tempo para se confirmar. Casaram-se e construíram juntos uma família: Adriano Moraes dos Santos, o primogênito; Solange Moraes dos Santos, a do meio; e Camila Moraes dos Santos, a caçula. Com o casamento sofreu nas mãos de um vício de alcoolismo de seu marido, onde ele bebia muito e acabava sendo inconveniente, mais mesmo assim honrou o que prometeu no sacramento, até que a morte nos separe, lutou pelo seu casamento e pela família.
A sua primeira gravidez de Adriano foi marcada por episódios que já anunciavam o que Lurdinha seria para sempre: uma mulher que enfrenta o pior sem perder a calma. Certa vez, uma enchente tomou conta do sítio onde moravam, e ela teve que lutar, literalmente, para sobreviver, subindo em mesas e móveis enquanto as águas subiam ao redor.
Em outra ocasião, grávida do seu primogênito, ela havia ido à cidade resolver assuntos e, no caminho de volta para o sítio, foi surpreendida por um temporal. Estava acompanhada de uma jovem parente, apelidada carinhosamente de "Preta", prática comum e afetiva naquela família de apelidos. Com a chuva batendo forte no meio do mato, sem conseguir andar por conta da gravidez e de sua condição física, Lurdinha fez o único gesto que cabia naquele momento: abraçou a menina e a envolveu com seu próprio corpo como escudo. Passaram a noite inteira assim, frias, molhadas, no escuro, até que, pela manhã, uma luz distante cortou a madrugada. Era um trator. Elas gritaram. Foram socorridas.
Essa cena resume, de forma quase simbólica, quem era Lurdinha: alguém capaz de proteger o outro mesmo quando ela mesma precisava de proteção.
O destino a trouxe para Toledo, no Paraná, numa das histórias mais bonitas de toda a sua vida. Sua filha Solange havia chegado à cidade, e em 31 de março de 2005 nasceu Michelly, a primeira neta da segunda filha. Lurdinha veio conhecê-la logo, e conta-se que, mesmo bebê, sempre. A avó se apaixonou de tal forma que tomou uma decisão sem hesitar: deixou tudo que tinha em Foz do Iguaçu e mudou-se para Toledo, para ficar perto da filha e da neta. Com ela vieram o marido Olímpio e os outros filhos.
Em Toledo, ela encontrou seu lar definitivo: primeiro na Vila Industrial, depois no Coopagro, onde se sentiu em casa como em nenhum outro lugar. Sentia-se segura ali, acolhida pelo bairro e pelas pessoas que foram, ao longo dos anos, se tornando família. Mesmo longe de seus irmãos e irmãs, o Coopagro virou seu chão.
A chegada a Toledo também marcou uma virada na dinâmica familiar. O marido Olímpio, que carregava o peso da bebida e de um comportamento difícil que assombrava os filhos e a família, encontrou nos olhinhos da neta Michelly um motivo de transformação. Lurdinha sempre contou isso à neta com carinho: "Você foi o motivo da mudança dele."
Mas o impacto de Lurdinha em Toledo foi muito além da própria família. Ela amava essa cidade com uma intensidade que poucos sentem pelo lugar onde moram, e essa paixão era contagiante. Ao longo dos anos, foram muitas as pessoas que vieram para Toledo por causa dela, direta ou indiretamente. Edson Bezerra, que aqui construiu sua família e hoje mora no bairro Orquídea, teve sua mãe e sua irmã também atraídas para a cidade pelos laços que Lurdinha ajudou a tecer. Seu irmão adotivo Diego igualmente fincou raízes em Toledo e constituiu família aqui. Seus filhos, um a um, construíram suas vidas nesta cidade. Foram famílias inteiras que encontraram em Toledo um lugar para recomeçar, e o fio que ligava muita dessas histórias tinha o nome de Lurdinha.
Toledo era para ela não apenas um endereço, mas uma identidade. Ela conhecia suas ruas, frequentava suas igrejas, circulava pelo centro, passeava pelas praças e ruas do Coopagro. E tinha um programa que era sagrado: as idas ao Mercado Schorr.
Ir ao Schorr fazer o rancho da semana era muito mais do que uma tarefa doméstica: era um ritual de alegria. Ela levava as filhas, levava os netos, e a saída se tornava um evento familiar. Dentro do mercado, escolhia os produtos com calma e atenção, e sempre deixava cada neto escolher algo especial para si. Com o tempo, os funcionários do Schorr passaram a conhecê-la pelo nome, pelo sorriso, pelo jeito único de ser. Era daquelas clientes que todo mundo gostava de atender, não pela frequência, mas pela presença. Lurdinha transformava uma compra de mercado numa tarde memorável.
Seria fácil imaginar que alguém com tantas dificuldades físicas e financeiras vivesse recolhida, focada apenas na própria sobrevivência. Lurdinha fez exatamente o contrário. Sua casa era uma porta sempre aberta, literalmente, para quem precisasse.
Usuários de drogas, pessoas em depressão, indivíduos que a sociedade havia descartado, familiares que a própria família não queria por perto: ela acolhia a todos. Trazia para sua casa, ajudava na recuperação, cuidava como mãe. Os próprios parentes às vezes a questionavam: "Você é doida de pegar esses drogados, vai só arrumar dor de cabeça." Ela não se importava. Via em cada pessoa perdida uma ovelha que precisava apenas ser tratada com dignidade e respeito.
Hoje Toledo tem muitos "filhos e netos adotivos" de Lurdinha, pessoas que, sem ela, talvez não estivessem vivas para contar suas histórias. Ver alguém recomeçar era, para ela, a maior das alegrias. A felicidade que tomava seus olhos azuis nesse momento, quem a conheceu nunca esquece.
Lurdinha se descrevia com orgulho como "católica apostólica romana", e vivia essa fé com a mesma intensidade com que vivia tudo. Todos os domingos, quando podia, estava na missa. Quando não conseguia ir presencialmente, assistia pela televisão ou pelo celular. Rezava em silêncio nos momentos mais difíceis, buscava forças no que não se vê, e ensinava, sem grandes discursos, que fé não é aquilo que se declama: é aquilo que se pratica quando tudo parece desmoronar.
Foi ela quem levou os netos à igreja, às pastorais, às atividades da comunidade. A neta Michelly guarda com carinho esse ensinamento: aprendeu com a avó que ser igreja não é apenas frequentá-la. É ser, no cotidiano, o acolhimento e o amor que se prega dentro dela.
Nos momentos de dor mais aguda, que foram muitos, Lurdinha ficava quieta e rezava. Não por fraqueza, mas por escolha. Sua dor era dela. Sua fé também.
Quem fala de Lurdinha, fala de um sorriso. De uma risada única, marcante, que ecoava por onde ela passava e que as pessoas guardaram na memória como se guarda uma música querida. Era uma pessoa alegre com consistência rara, não aquela alegria performática de quem quer mostrar que está bem, mas a alegria genuína de quem encontrou, dentro das próprias limitações, um jeito bonito de estar no mundo.
Amava passear com os netos. Quando ainda não tinha a cadeira elétrica, eram os próprios netos que a empurravam, cansados, às vezes com dor, mas faziam isso de bom grado porque ver a avó feliz valia mais do que qualquer cansaço. Adorava ir ao mercado com uma lista na mão e deixava cada neto escolher um produto especial. Adorava fazer cricris e doces na Páscoa para distribuir para as crianças da vizinhança. No Natal, sua casa estava sempre cheia, e ela queria assim.
Tinha seus cachorrinhos, que levava consigo para onde ia. Amava comprar roupas e usar vestidos, embora com o tempo tenha ficado mais tímida quanto a isso. Seus olhos azuis como o céu, o cabelo entre castanho e loiro, e o jeito levemente torto de andar por conta de sua condição física formavam uma imagem que todos que a conheceram nunca vão esquecer.
Quando ganhou sua cadeira elétrica, a alegria foi enorme. Não pelo conforto, mas pela independência. Poder ir e vir sozinha, do seu jeito, no seu tempo: isso a fazia brilhar. Os netos às vezes reclamavam, preocupados com os carros e o trânsito, mas ela ia assim mesmo. Sabia o que precisava.
Em 2024, Lurdinha quebrou o fêmur. A queda, que aconteceu de madrugada, foi vivida por ela em silêncio durante a noite inteira, pois não queria acordar ninguém. Só de manhã, quando a família foi ajudá-la, perceberam o inchaço e a cor roxa que tomava a perna. A dor que ela havia suportado calada, sem uma palavra sequer, foi descoberta pelos outros antes de ser dita por ela.
A cirurgia aconteceu, mas a recuperação trouxe novas limitações. Ela, que antes se movia com andador ou com a cadeira elétrica e fazia suas coisas com alguma autonomia, passou a depender mais dos outros, a usar fraldas, a ficar mais tempo deitada. Para uma mulher que havia construído sua identidade na independência e no cuidado dos outros, isso foi devastador por dentro, embora, como sempre, ela não dissesse.
Em 2026, uma dor persistente no abdômen levou ao diagnóstico: câncer no estômago em estágio 4. A cirurgia foi realizada, e os médicos conseguiram retirar todo o tumor. Lurdinha estava em recuperação, carregando mais uma batalha com a mesma serenidade silenciosa de sempre.
Mas o corpo, depois de uma vida inteira de lutas, pediu descanso. Uma trombose, seguida de embolia pulmonar, levou-a na madrugada do dia 17 de abril de 2026. Ela partiu como havia vivido: sem alarde, sem espetáculo, com a mesma paz que tinha quando ficava quieta e rezava esperando a manhã chegar
Vozes de quem a amou
São muitas as vozes que tentam, e precisam, traduzir em palavras o que Dona Lurdinha significou. Cada uma delas ilumina um ângulo diferente de uma mulher que foi grande demais para caber numa só perspectiva.
"Era uma pessoa guerreira. Nunca deixou faltar o que comer dentro de casa. Sempre batalhou e enfrentou seus problemas de frente. Sabe por quê? Com todas as dificuldades que tinha de estar em cima de uma cadeira de rodas, ela sempre fez o bem, não só para a família, mas para todos que ela conhecia. Nunca soube dizer não para ninguém. Era uma mulher muito devota, muito religiosa. Com todas as suas dificuldades, era feliz. Minha mãe era um anjo nessa terra. Agora ela está olhando por nós lá do céu."
— Adriano Moraes dos Santos, filho
"Durante dezoito anos da minha vida, tive ao meu lado uma mulher incrível, forte e guerreira. Mesmo sendo cadeirante, ela nunca deixou faltar amor, cuidado e proteção para mim e para toda a nossa família. Enquanto minha mãe trabalhava fora, foi ela quem esteve presente em cada momento da minha vida, sempre cuidando de mim com todo o carinho do mundo. Minha avó nunca reclamava das dores, nunca demonstrava fraqueza. Pelo contrário: ela sempre colocava os netos em primeiro lugar, fazendo de tudo para nos ver felizes e bem. Quando engravidei aos 15 anos, ela esteve ao meu lado mais uma vez, recebeu com amor o primeiro bisneto, o 'pintinho', como ela dizia com tanto carinho. Minha avó foi uma verdadeira guerreira, um exemplo de amor, dedicação e superação. E mesmo que hoje reste a saudade, ela viverá para sempre nas nossas memórias, nos nossos corações e em cada ensinamento que deixou."
— Ana Carolina, neta
"Tia Iloia foi uma dessas pessoas raras que deixam marcas que o tempo não apaga. Mesmo carregando suas próprias lutas, nunca deixou de estender a mão para quem precisava. Nunca deixou de rezar, de falar de Deus e de manter viva a fé que guiava seus dias. Era humilde, simples, carismática, com uma alegria que parecia maior que qualquer dificuldade. Ela mostrou que limitações não definem uma pessoa. O que definia a tia Iloia era sua bondade, sua fé e seu coração generoso."
— Maria, sobrinha
"Tenho tantas coisas para falar da minha vó. Ela foi muito mais do que vó. Deixou seu legado para muitas pessoas, e sua marca era o coração generoso e a bondade. E a maior de todas era a sua fé. Com ela aprendi que não devemos ter medo de ser quem somos. Com ela aprendi a amar o próximo como a mim mesma. Hoje não sinto que a perdi. Sinto que a tenho comigo, só que de uma forma diferente."
— Michelly, neta
"Dona Lurdinha me recebeu com todo amor do mundo, a mim e à Agatha. Enquanto muitos não acreditavam no nosso relacionamento, ela acreditava. Vi a felicidade dela quando soube da gravidez do Arthur, e vi a tristeza dela quando soube que ele tinha partido. Ela me acalmou tanto. Quando veio a Maria, os olhinhos dela brilhavam de alegria. Quando pegou a bebê pela primeira vez, os olhos encheram d'água, e ela estava com o sorriso no rosto. Ela era 'a totózinha', como a Maria dizia. Ela sempre me dizia que eu era uma oração dela, que me agradecia por ter entrado na vida do irmão. Ela se tornou não só cunhada, mas uma mãe. O Thiago sempre fala que ela não é irmã dele: é mãe. Cuidou dele, amou ele, e sempre que ele precisou ela estava lá. Nunca o julgou. Nunca desistiu dele, quando muitos já tinham desistido."
— Relato de genro, cunhado e família estendida
Uma rua, um nome, uma história
Nomear uma rua é um ato de memória coletiva. É dizer, para as gerações que ainda virão, que alguém passou por aqui e valeu a pena. Que alguém deixou este lugar melhor do que encontrou.
Eloi Lurdes dos Santos não construiu monumentos nem acumulou títulos. Construiu pessoas. Reconstruiu vidas. Fez de sua casa um abrigo e de seus braços um lar para quem não tinha outro. Viveu com o corpo curvado e a alma ereta, e ensinou, sem palavras, que a grandeza de uma pessoa não se mede pelo que ela tem, mas pelo que ela oferece.
Que esta rua carregue seu nome como ela carregava seus valores: com leveza, com generosidade e com uma alegria que não se apaga. Que quem passar por aqui um dia saiba que, neste chão, viveu uma mulher que foi, na mais plena acepção da palavra, uma força da natureza: pequena no tamanho, imensurável no coração.
SALA DAS SESSÕES DA CÂMARA MUNICIPAL DE TOLEDO,
ESTADO DO PARANÁ, 09 de junho de 2026.
Professor Oséias
vereador
Documento assinado digitalmente (ICP-Brasil) por:
OSEIAS SOARES DOS SANTOS:29740228801 em 09/06/2026 17:05:56